Política
Entre o lacre e o conserto: o parlamentar que fiscaliza de verdade não começa pelas redes
Por: Marco Correia Advogado, pós-graduado em Ciências Políticas e História Geral.
Você já percebeu como funciona hoje o seu representante no legislativo?
Surge um problema sério: falta médico na UPA, merenda não chega, a rua vira cratera. E aí vem a grande dúvida: o parlamentar vai procurar resolver ou vai abrir a câmera frontal?
Spoiler: ele abre a câmera.
Grava, posta, se indigna, capricha na legenda. A trilha sonora pode até faltar, mas o “isso é um absurdo” nunca falha. Em poucos minutos, está feito. O problema continua lá, intacto, mas agora com boa iluminação e ângulo favorável.
Porque hoje, para alguns, fiscalizar virou isso: transformar problema em conteúdo.
Tribuna não é palco
A tribuna deveria ser lugar de responsabilidade. Um espaço sério, de cobrança fundamentada, de voz firme em nome da população.
Mas, em muitos casos, virou outra coisa.
Virou cenário.
Tem discurso inflamado, dedo apontado, indignação ensaiada. Falta só alguém gritar “gravando” antes de começar. O curioso é que, muitas vezes, não há sequer um ofício enviado, uma tentativa formal de resolver, uma conversa iniciada.
É barulho sem lastro.
Não é fiscalização. É performance.
E nem das melhores.
O trabalho que resolve não dá engajamento
Resolver problema, de verdade, é trabalhoso. Dá preguiça só de pensar.
Tem que ligar, insistir, cobrar prazo, ouvir desculpa, marcar reunião, voltar, insistir de novo. Às vezes precisa sentar com quem pensa diferente e tratar do assunto como adulto.
Nada disso viraliza.
Não rende corte bonito, não gera aplauso imediato, não vira story com música dramática.
É lento, burocrático e, principalmente, invisível.
Talvez por isso seja tão raro.
O parlamentar comprometido sabe que o caminho começa longe das câmeras. Primeiro se tenta resolver. Depois, se necessário, se expõe. A tribuna entra quando o diálogo falha, não quando a vaidade chama.
O curioso caso do fiscal do zap zap
Existe uma figura interessante nesse cenário.
É o parlamentar que nunca bateu na porta de uma secretaria, mas tem uma coleção respeitável de vídeos denunciando “a inércia do poder público”.
Ele cobra providência, mas não move uma palha fora dos grupos de WhatsApp ou do Instagram.
É quase um crítico profissional de problemas que ele mesmo não tentou resolver.
No fim das contas, nada muda. O buraco continua aberto, a fila continua grande, o serviço continua ruim.
Mas agora tudo isso tem curtidas. São muitos cliques!
Conclusão
Se a ideia é lacrar, que seja no lugar certo.
Lacrar resolvendo.
Fazendo o que ninguém vê, o que dá trabalho, o que não rende aplauso fácil.
Depois, se ainda houver necessidade, aí sim se fala, se cobra, se expõe.
Porque quando a tribuna vira ponto de partida, e não de chegada, o foco já não é o problema.
É o espetáculo.
E, convenhamos, problema nenhum se resolve com cliques. Só com trabalho.
































