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Política

8 de janeiro: vandalismo criminoso não é golpe de Estado

Narrativa política tenta transformar baderna e vandalismo em uma falsa tentativa de ruptura institucional

A tentativa de reescrever os acontecimentos de 8 de janeiro de 2023 como um suposto golpe de Estado representa mais um capítulo da instrumentalização política de um episódio grave, porém distante de qualquer ameaça real à democracia brasileira.

Os atos ocorridos naquela data foram inaceitáveis e criminosos. Houve depredação de patrimônio público, invasão de prédios e desordem generalizada. Os responsáveis devem, sim, ser punidos nos limites da lei. O que não se sustenta, sob qualquer análise séria e responsável, é a narrativa de que o Brasil esteve à beira de um golpe institucional.

Não houve risco concreto à democracia. Nenhuma autoridade legitimamente constituída foi deposta, nenhuma cadeia de comando foi rompida, nenhuma instituição deixou de funcionar. O presidente da República, Luiz Inácio Lula da Silva, não estava em Brasília e, ainda assim, adotou as medidas cabíveis. O então presidente da Câmara, Arthur Lira, agiu. O presidente do Senado também. O Supremo Tribunal Federal, apesar de seus prédios terem sido invadidos, manteve-se intacto como instituição. Prédios não são instituições  e confundir símbolos físicos com o exercício real de poder é um erro grave.

A ideia de que o país poderia ter amanhecido, no dia seguinte, sob o comando de um “Napoleão tropical” é fantasiosa e desprovida de qualquer base factual. Não houve tomada de poder, não houve adesão das Forças Armadas, não houve apoio institucional. Houve, sim, uma falha grave na segurança pública do Distrito Federal e do Governo Federal, que permitiu que uma multidão  se aproximasse de áreas sensíveis, algo que não deveria ter ocorrido.

Transformar o 8 de janeiro em marco cívico, data comemorativa ou símbolo de “salvação da democracia” soa como oportunismo político. O país já possui datas que representam conquistas reais da nação: a Independência, a Proclamação da República, o Dia da Consciência Negra. Criar um novo feriado ou ritualizar o 8 de janeiro não fortalece a democracia, apenas alimenta discursos eleitorais e narrativas convenientes.

Causa estranheza, ainda, a insistência em vincular os atos do dia 8 ao julgamento do ex-presidente Jair Bolsonaro. Naquela data, Bolsonaro não era presidente da República. As investigações que o envolvem dizem respeito a atos praticados durante seu mandato, e não aos acontecimentos de janeiro de 2023. Forçar essa conexão é, no mínimo, intelectualmente desonesto.

A exploração política do episódio por setores do governo e por ministros do Supremo Tribunal Federal, com discursos, atos simbólicos e encenações públicas, contribui mais para a polarização do que para a pacificação nacional. O país precisa de serenidade institucional, não de espetáculos.

Nesse contexto, a postura de lideranças como Davi Alcolumbre e Hugo Motta, ao se recusarem a participar de encenações políticas ou celebrações artificiais, revela sensatez. Não há o que festejar. Houve crime, houve falha do Estado e houve punições, o restante é narrativa.

O 8 de janeiro foi um dia lamentável da história recente do Brasil. Mas não foi golpe. Insistir nessa tese não fortalece a democracia; apenas a fragiliza ao submetê-la ao uso político e retórico de conveniência.

Por: Flavio Ferraz

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