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Economia

Fim da escala 6×1: Ana Paula dos Anjos explica mudanças e defende planejamento para empresas e trabalhadores

Em entrevista ao Podcast da 92, a contadora e CEO da Meta Contabilidade abordou descanso, jornada, custos, negociação sindical e os desafios da adaptação.

O fim da escala de seis dias de trabalho para um de descanso foi o tema central do Podcast da 92 desta quarta-feira, 21 de outubro. A convidada foi a contadora Ana Paula dos Anjos, conhecida como Paulinha, CEO da Meta Contabilidade, que conversou com Portelinha e César Soares sobre os efeitos da mudança na rotina dos trabalhadores e na organização das empresas.

Transmitido pela Fascinação FM, em 92,3 MHz, de segunda a sexta-feira, das 19h às 21h, o programa tem na equipe Portelinha, Sisinio Neto e César Soares, com comentários do analista político Flávio Ferraz. Nesta edição, Sisinho esteve ausente por questões de saúde e recebeu manifestações de carinho dos colegas e dos ouvintes.

Ao longo da entrevista, Paulinha defendeu a ampliação do descanso como uma conquista para a qualidade de vida. Ao mesmo tempo, destacou que sua implementação exige organização, cálculos e acompanhamento profissional.

O que muda na prática

A escala indica como os dias de trabalho e de descanso são distribuídos. Na organização 6×1, são seis dias de trabalho para um de folga. No modelo 5×2, são cinco dias de trabalho e dois de descanso.

Jornada e escala, entretanto, são conceitos diferentes. A jornada corresponde ao tempo de trabalho; a escala distribui esse tempo ao longo dos dias. Por isso, uma empresa que já concede folgas aos sábados e domingos também pode precisar ajustar sua carga horária.

A Emenda Constitucional 141/2026 foi promulgada em 16 de outubro e prevê dois dias de repouso semanal remunerado, sem redução salarial. A transição estabelece inicialmente o limite de 42 horas semanais e, um ano depois dessa etapa, de 40 horas. Segundo informação divulgada pelo Senado, a primeira mudança começa em 15 de dezembro de 2026.

Mais tempo para descansar e cuidar da vida

Na avaliação de Paulinha, a ampliação do descanso deve ser compreendida também pelo seu efeito sobre a saúde, a convivência familiar e o bem-estar.

A contadora relacionou o debate à preocupação com o adoecimento emocional no ambiente de trabalho. Para ela, a gestão das empresas precisa considerar as pessoas que sustentam suas atividades, além dos números e das metas.

Esse foi um dos pontos que atravessaram toda a conversa: cuidar da saúde do trabalhador e organizar o funcionamento do negócio são responsabilidades que precisam caminhar juntas.

O desafio de manter as empresas funcionando

Paulinha afirmou que o comércio e os serviços merecem atenção especial, sobretudo nos estabelecimentos que funcionam aos sábados, domingos e feriados. Também citou a indústria, a construção civil e atividades que dependem de equipes em revezamento.

Segundo a entrevistada, não existe uma solução única. Cada empreendimento precisa observar seus horários de maior movimento, o número de funcionários, a demanda dos clientes e o custo das alternativas.

Entre as possibilidades discutidas estiveram a reorganização dos turnos, o revezamento das folgas, a contratação de trabalhadores e a revisão dos horários de atendimento.

Como exemplo, relatou uma conversa com uma empresária para avaliar a abertura do estabelecimento uma hora mais tarde. A intenção seria preservar o funcionamento aos sábados, considerado importante para o faturamento, e distribuir as folgas durante a semana.

O exemplo mostrou a ideia central defendida pela contadora: antes de tomar uma decisão, é necessário estudar a realidade do negócio.

Horas extras ou novas contratações?

Uma das dúvidas levantadas pelos apresentadores foi se a redução da jornada levaria necessariamente à contratação de mais pessoas.

Paulinha respondeu que isso depende da atividade. Em determinados casos, contratar pode ser mais adequado; em outros, uma reorganização dos processos ou o uso de horas extras dentro dos limites legais pode atender à necessidade.

Durante a entrevista, ela apresentou simulações de aumento de despesas. Esses exemplos, porém, dependem das premissas utilizadas: salários, quantidade de horas extras, adicionais, encargos e regime tributário. Portanto, não representam um custo fixo que possa ser aplicado a qualquer empresa.

Há ainda uma diferença entre o aumento do valor da hora e o aumento da folha. Se o salário mensal permanece igual e a jornada diminui, cada hora contratada passa a ter valor maior. O custo total do negócio dependerá de como a empresa reorganizará sua operação.

Como distribuir 42 horas em cinco dias

A entrevista também abordou uma questão prática: 42 horas divididas por cinco dias correspondem a oito horas e 24 minutos por dia.

Paulinha demonstrou preocupação com a segurança jurídica dessa distribuição e defendeu a participação dos sindicatos.

Nesse ponto, cabe um esclarecimento: o texto aprovado já prevê que, durante a transição, acordo ou convenção coletiva poderá ampliar a duração diária normal para acomodar as 42 horas semanais, preservando os dois dias de repouso. Assim, os 24 minutos não devem ser classificados automaticamente como horas extras sem examinar a negociação aplicável.

O papel dos sindicatos e da comunicação interna

Para a entrevistada, sindicatos de trabalhadores e de empregadores precisam participar da adaptação, considerando as características de cada categoria.

Ela destacou a importância de regras claras e de orientação para que as decisões tenham respaldo jurídico.

Dentro das empresas, recomendou que as escalas sejam organizadas e comunicadas com antecedência. Cada funcionário precisa saber quando trabalhará, quais serão suas folgas e como serão tratadas eventuais alterações.

Esse cuidado, explicou, ajuda a evitar desencontros durante a adaptação e facilita o planejamento de todos.

As folgas precisam ser no sábado e no domingo?

Paulinha explicou que a organização das folgas deve considerar a atividade da empresa e as regras aplicáveis. Ao longo da conversa, mencionou a possibilidade de distribuir o descanso entre um dia útil e o domingo, por exemplo.

A informação oficial do Senado estabelece preferência pelo domingo para um dos dias de repouso e admite mecanismos de compensação mediante negociação coletiva. Isso exige atenção ao enquadramento de cada atividade. A mesma fonte esclarece que a emenda não altera a jornada dos servidores públicos, ponto relevante porque a entrevista também mencionou a administração municipal.

Faltas e descontos exigem atenção

Outro assunto discutido foi o efeito das faltas injustificadas sobre a remuneração e o descanso semanal remunerado.

Na entrevista, Paulinha alertou para a possibilidade de descontos associados à ausência e aos repousos. A afirmação de que uma falta levaria sempre à perda de três dias, ou quatro em semana com feriado, exige análise específica antes de ser aplicada.

Para o público, a orientação prática é compreender as regras de justificativa de ausência e conferir com o departamento pessoal como os descontos são calculados. A quantidade de folgas, isoladamente, não basta para determinar o desconto em todos os contratos.

Saúde ocupacional e prevenção

A conversa avançou para a saúde e a segurança no trabalho, incluindo a NR-1 e a prevenção de riscos no ambiente profissional.

Paulinha defendeu que os empresários busquem informação e tratem essas obrigações como parte da gestão cotidiana. Segundo ela, algumas empresas ainda encontram dificuldades para compreender suas responsabilidades e organizar o acompanhamento necessário.

A contadora também ressaltou que a prevenção envolve observar as condições em que o trabalho acontece e identificar situações que possam contribuir para o adoecimento.

A contabilidade como apoio à gestão

Ao ser questionada sobre o papel dos contadores, Paulinha afirmou que o trabalho vai além de elaborar folhas de pagamento e cumprir obrigações.

Na sua visão, a contabilidade deve ajudar o empresário a compreender os números, avaliar alternativas e tomar decisões.

“Antes de olhar os números, eu olho para o meu cliente como gente”, afirmou.

Ela explicou que a Meta Contabilidade pretende promover encontros com seus clientes a partir da segunda semana de novembro, reunindo empresários por segmento para discutir possibilidades de adaptação.

Também informou que o escritório já trabalha na escala 5×2 e destacou a confiança em sua equipe.

Menos horas significam produzir menos?

Para Paulinha, a resposta depende da organização do trabalho.

A mudança pode levar a empresa a rever tarefas, reduzir desperdícios, redistribuir responsabilidades e avaliar seus resultados. Em algumas atividades, manter a produção exigirá reforço de equipe; em outras, será possível melhorar os processos.

Ela também propôs que os empresários observem a diferença entre faturamento e resultado. Vender ou produzir mais precisa ser analisado junto com os custos e a margem obtida.

Sob essa perspectiva, a adaptação pode se tornar uma oportunidade para examinar aspectos da gestão que antes recebiam pouca atenção.

Reforma tributária também entrou na conversa

Além da jornada de trabalho, a entrevista abordou a reforma tributária e a necessidade de planejamento fiscal.

Paulinha relatou a realização de encontros com clientes para discutir cenários e opções de tributação. Também mencionou um caso em que o escritório teria identificado pagamento de aproximadamente R$ 650 mil a mais em tributos durante um ano, atribuído à opção adotada pela empresa.

O relato foi apresentado como exemplo da importância de analisar cada negócio. As condições de eventual recuperação de valores dependem da situação concreta e não podem ser generalizadas a partir desse caso.

A contadora ainda destacou a relevância da documentação fiscal e do acompanhamento das mudanças para as relações entre fornecedores e compradores.

Uma trajetória construída com aprendizado

Na parte pessoal da entrevista, Paulinha contou que não planejava inicialmente seguir a contabilidade.

Segundo relatou, sua aproximação com a profissão começou quando trabalhava como telefonista em uma concessionária de Itapetinga. O contato com a rotina administrativa despertou seu interesse, e ela passou a assumir atividades de departamento pessoal, além de colaborar em outras áreas.

Ao recordar sua trajetória, destacou o aprendizado, a disposição para resolver problemas e a satisfação de acompanhar o crescimento dos clientes.

Também falou sobre o atendimento aos microempreendedores individuais. Para ela, um pequeno negócio representa trabalho, autonomia e a realização de um projeto de vida.

“Eu me realizo na realização das pessoas que atravessam meu caminho”, declarou.

A orientação aos empresários

Ao final, Paulinha pediu serenidade, iniciativa e diálogo. Recomendou que os empresários examinem seus negócios, conversem com profissionais e troquem experiências com outras pessoas que enfrentam dificuldades semelhantes.

“Não se desespere”, aconselhou.

A mensagem foi acompanhada de um chamado à preparação: conhecer os custos, organizar as equipes, buscar orientação e estudar as alternativas disponíveis.

A entrevistada encerrou reafirmando seu vínculo com Itapetinga e a disposição de contribuir com a cidade por meio do trabalho. A conversa reuniu, assim, explicações sobre a mudança na jornada e uma defesa da gestão próxima das pessoas, com atenção aos direitos dos trabalhadores e à continuidade dos negócios.

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